O eixo intestino‑pulmão: a ligação surpreendente entre os sistemas digestivo e respiratório
Por Viome Team
Micróbios habitam todas as superfícies do nosso corpo — dos olhos aos pulmões — e, especialmente, o trato digestivo, que é rico em nutrientes e contém a maior variedade de microrganismos. Com a explosão de interesse e investigação em vários microbiomas, os especialistas em pneumologia estão naturalmente focados nos residentes microbianos do pulmão; no entanto, a investigação sugere que os micróbios intestinais podem ter um impacto ainda maior na saúde respiratória, dada a relação complexa entre o intestino e os pulmões.
Esta ligação, conhecida como eixo intestino‑pulmão, está a revolucionar a nossa compreensão de como estes sistemas de órgãos interagem e se influenciam mutuamente. Para cuidarmos melhor de nós próprios, é útil compreender os mecanismos por trás deste eixo, as suas implicações para a saúde e longevidade e como podemos agir com base neste conhecimento para melhorar o nosso bem‑estar global.

O teu intestino e os teus pulmões trabalham em conjunto

O eixo intestino‑pulmão refere-se à comunicação bidirecional entre o trato gastrointestinal e o sistema respiratório. Esta ligação é facilitada por vários mecanismos, incluindo o sistema imunitário, o sistema nervoso e o microbioma — os triliões de microrganismos que habitam o nosso corpo.¹
Para compreender melhor este conceito, vamos dividi-lo em componentes‑chave.

Os micróbios ligam o intestino e os pulmões

Tanto o intestino como os pulmões acolhem comunidades diversas de microrganismos. Enquanto o microbioma intestinal tem sido amplamente estudado, a investigação sobre o microbioma pulmonar é relativamente recente. Até agora, os cientistas descobriram que estas comunidades microbianas podem influenciar-se mutuamente através de várias vias:

Migração microbiana

Micróbios do intestino podem viajar para os pulmões através da corrente sanguínea ou do sistema linfático.²

Metabolitos partilhados

Subprodutos bacterianos produzidos no intestino podem afetar a função pulmonar — e vice‑versa.³

Modulação do sistema imunitário

O microbioma intestinal desempenha um papel crucial na forma como molda as nossas respostas imunitárias, o que pode impactar a saúde pulmonar.⁴

O teu sistema imunitário liga a saúde intestinal e pulmonar

O intestino é a “casa” de aproximadamente 70% das nossas células imunitárias. Esta concentração de atividade imunitária no sistema digestivo tem efeitos de grande alcance em todo o corpo, incluindo nos pulmões. O tecido linfoide associado ao intestino (GALT) funciona como um “campo de treino” para células imunitárias, que depois podem circular pelo corpo e influenciar respostas imunitárias noutros órgãos, como os pulmões.⁵

O teu sistema nervoso liga a função intestinal e pulmonar

O intestino e os pulmões estão ligados através do sistema nervoso, em particular através do nervo vago. Este nervo longo e “errante” funciona como uma autoestrada de comunicação entre o cérebro, o intestino e os pulmões, permitindo sinalização rápida e coordenação entre estes sistemas.⁶ Compreender o eixo intestino‑pulmão tem implicações importantes tanto para a manutenção da saúde como para a saúde ao longo da vida.

O papel da saúde intestinal na saúde respiratória

A investigação mostrou que o microbioma intestinal pode influenciar quão bem o nosso corpo se defende perante desafios respiratórios. Um estudo concluiu que ratos com um microbioma intestinal saudável conseguiam apoiar e reforçar melhor a imunidade do que ratos com bactérias intestinais perturbadas.⁷ Embora esta área de investigação ainda esteja a evoluir, cientistas observaram que um microbioma intestinal saudável e diverso pode ajudar a proteger o sistema respiratório.

Interações intestino‑pulmão em sensibilidades das vias aéreas

Cientistas observaram padrões interessantes sobre como micróbios intestinais e o sistema respiratório podem influenciar-se mutuamente. A investigação sobre a “hipótese da higiene” explora como a exposição microbiana na infância pode influenciar o desenvolvimento do sistema imunitário. Este trabalho analisa como a redução da diversidade microbiana durante a primeira infância pode estar ligada a maior sensibilidade das vias aéreas, especialmente em países mais industrializados.⁸

Explorar ligações intestino‑pulmão para apoiar a função respiratória

Investigadores observaram alterações relevantes na composição do microbioma intestinal em certos indivíduos e populações, incluindo menor diversidade microbiana e mudanças em grupos bacterianos específicos. Estes achados geraram mais interesse em compreender o eixo intestino‑pulmão, já que o microbioma intestinal pode influenciar a saúde respiratória através de mecanismos como interações com o sistema imunitário e a produção de metabolitos que afetam a função pulmonar.⁹

Melhora a tua saúde intestinal com estes hábitos diários

Manter um microbioma intestinal saudável pode ter efeitos positivos na função pulmonar. Algumas formas de promover saúde intestinal incluem:
  • Comer uma alimentação diversa e rica em fibra, com muita fruta, vegetais e cereais integrais
  • Incluir alimentos fermentados como iogurte, kefir e chucrute
  • Limitar alimentos processados e açúcares adicionados
  • Gerir stress com técnicas como meditação ou yoga
  • Fazer movimento e atividade física regularmente
  • Considerar prebióticos, probióticos e pós‑bióticos; alguns estudos sugerem que certas estirpes podem apoiar a saúde respiratória

Usa antibióticos com critério para proteger o equilíbrio intestinal

Antibióticos podem perturbar o equilíbrio delicado das bactérias intestinais, potencialmente impactando a saúde pulmonar. Usa antibióticos apenas quando necessário e conforme prescrito pelo teu profissional de saúde.¹⁰

Encontra o equilíbrio certo na tua rotina de higiene

Embora seja importante manter boas práticas de higiene, especialmente em épocas mais frias, tem atenção a não higienizares em excesso o teu ambiente. A exposição a uma variedade de micróbios, particularmente no início da vida, pode ajudar a “treinar” o sistema imunitário e reduzir sensibilidades.¹¹

Mantém-te informado(a) sobre novas descobertas do eixo intestino‑pulmão

À medida que a compreensão do eixo intestino‑pulmão cresce, surgem novas possibilidades para a saúde respiratória:

Suporte baseado no microbioma

Cientistas estão a investigar o potencial de probióticos ou prebióticos direcionados para apoiar a saúde pulmonar.*

Medicina personalizada

Ao analisar os microbiomas intestinal e pulmonar de um indivíduo, médicos podem conseguir adaptar tratamentos para condições respiratórias de forma mais eficaz.

Novos sistemas de administração de fármacos

Investigadores estão a explorar formas de aproveitar o eixo intestino‑pulmão para entregar medicamentos de forma mais eficiente aos pulmões.

Uma nova fronteira para insights funcionais sobre saúde humana

O eixo intestino‑pulmão oferece uma nova fronteira de insights funcionais importantes sobre a saúde humana. À medida que avançamos, integrar este conhecimento no dia a dia e nos cuidados de saúde será crucial. Ao nutrirmos o equilíbrio delicado dos nossos ecossistemas internos, podemos conseguir respirar com mais facilidade e viver de forma mais saudável. O eixo intestino‑pulmão é um lembrete poderoso da interligação dos sistemas do corpo e da importância de uma abordagem holística à saúde e ao bem‑estar.

Referências

Budden, K. F., Gellatly, S. L., Wood, D. L., Cooper, M. A., Morrison, M., Hugenholtz, P., & Hansbro, P. M. (2017). Nature Reviews Microbiology, 15(1), 55‑63.
Ni, S., Yuan, X., Cao, Q., Chen, Y., Peng, X., Lin, J., Li, Y., Ma, W., Gao, S., & Chen, D. (2023). Microbial Pathogenesis, 183, 106311.
Dang, A. T., & Marsland, B. J. (2019). Mucosal Immunology, 12(4), 843‑850.
Enaud, R., Prevel, R., Ciarlo, E., Beaufils, F., Wieërs, G., Guery, B., & Delhaes, L. (2020). Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, 10, 9.
Bemark, M., Pitcher, M. J., Dionisi, C., & Spencer, J. (2024). Trends in Immunology, 45(3), 211–223.
Li, C., Chen, W., Lin, F., Li, W., Wang, P., Liao, G., & Zhang, L. (2023). Cellular and Molecular Neurobiology, 43(3), 991–1003.
Zhang, F., Lau, R. I., Liu, Q. et al. (2023). Nat Rev Gastroenterol Hepatol, 20, 323–337.
Price CE, O’Toole GA. (2021). J Bacteriol, 203:10.1128/jb.00311-21.
Finlay, B. B., Amato, K. R., Azad, M., et al. Proc Natl Acad Sci U.S.A., 118(6) e2010217118.
Patangia, D. V., Anthony Ryan, C., Dempsey, E., Ross, R. P., & Stanton, C. (2022). MicrobiologyOpen, 11(1), e1260.
Hoen, A. G., Li, J., Moulton, L. A., et al. (2015). The Journal of Pediatrics, 167(1), 138–47.e473.
Kuo, C.‑H., Kuo, H.‑F., Huang, C.‑H., Yang, S.‑N., Lee, M.‑S., & Hung, C.‑H. (2013). Journal of Microbiology, Immunology and Infection, 46(5), 320‑329.

*As informações fornecidas pela Viome destinam-se apenas a fins educativos e informativos. Estas informações não se destinam a ser utilizadas pelo cliente para qualquer finalidade de diagnóstico e não substituem aconselhamento médico profissional. Deve procurar sempre aconselhamento do seu médico ou de outros profissionais de saúde qualificados para quaisquer questões que possa ter relativamente a diagnóstico, cura, tratamento, mitigação ou prevenção de qualquer doença ou outra condição médica ou incapacidade, ou relativamente ao estado da sua saúde.
Elaborado pela equipa Viome. Publicação original em www.viome.com.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *